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De uma loba sobrevivente


ANTISSOCIAL

 

Aos sessenta anos e alguns meses, vou me descortinando como um ser totalmente antissocial. Ainda estou em processo de surpresa.

Que eu era individualista, já sabia, mas...

Percebo que, a minha vida inteira, tudo que fiz foi em busca de aprovação e aceitação (coisas das quais, hoje declino alegremente). Enfim, EU SOU! Nua. Crua. Dura. Sem censura (a não ser o limite que cruza o limite alheio). Feliz em não me ver na obrigação sócio-econômica-afetiva de ter que cumprir obrigações sociais em prol de “pertencer”.

Se amo, amo (o que é muito raro...que horror!). Se não amo, não finjo (ó, execração!)

Se quero, faço. Se não, não faço.

Egocêntrica? Egocentrada?

Qui lo sa?...(dou de ombros). Não me importa.

Compaixão, sim.

Ética, sim.

O Eu e o(s) Outro(s)

Viver em sociedade é ser eternamente reativo. Abri mão. Prefiro ser ativa com meu próprio emocional, físico, espiritual, do que viver no bombardeio constante da necessidade de aceitação e aprovação de outrem. Feliz em ser. Não em “poder”. Não em “ter”. Só existir. Profunda consciência do meu Eu.

Sociedade e suas neuroses (até as minhas) são tão enfadonhas. Jogos de poder. Manipulações. Vampirismos. Egos. Tantos egos. Tédio completo.

Mariposas são atraídas pela luz.

Seres humanos, pela aceitação e aprovação (mesmo que utópicas).

Humanidade carente, compulsiva. Já fui assim. Será que evolui ou regredi?

Quanto mais aprendi a viver sem, mais melhorou minha qualidade emocional de vida.

Meu eu espiritual, nutrido pelos princípios da Santa Madre, hoje não tem medo do Pai, não teme punições atrozes, mas O tem como Criador cúmplice e amigo que ama e aceita. Dá tempo ao tempo a cada qual. Respeita o livre-arbítrio serenamente.

A Natureza é justa (ou não) por si só. Tudo acontece em detrimento de desejos bons ou espúrios. Tudo é.

Sentir-se bem num mundo caótico, sem saber se vou viver mais um dia ou não. No fio da navalha (de Occam). Ser primitivo, numa selva tecnológica e violenta. Presa ou predador? Talvez um Q de cada? No meio da cadeia alimentar?

E o pequeno e doce cervo (sem saber que não era apropriado) comeu e mastigou o pequeno pássaro.

Relaxo e me permito gozar. Meu momento. A minha liberdade é me permitir (quem sabe) amar tudo com é, mas não precisar. Quem precisa, cobra, manipula, forja máscaras. Livrei-me da minha.

Esse é um dos meus poemas favoritos do grande mestre:

Confissão - Carlos Drummond de Andrade

 

Não amei bastante meu semelhante,

não catei o verme nem curei a sarna.

Só proferi algumas palavras,

melodiosas, tarde , ao voltar da festa.


Dei sem dar e beijei sem beijo.

(Cego é talvez quem esconde os olhos

embaixo do catre.) E na meia-luz

tesouros fanam-se, os mais excelentes.


Do que restou, como compor um homem

e tudo o que ele implica de suave,

de concordâncias vegetais, murmúrios

de riso, entrega, amor e piedade?


Não amei bastante sequer a mim mesmo,

contudo próximo. Não amei ninguém.

Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-

que se esfacelou na asa do avião.

 

 



Escrito por Maria Cunha às 15h58
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