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De uma loba sobrevivente


O Botão de Rosa Vermelha

Eram vinte a iniciarem o curso de reciclagem no Centro de Condutores. Seus motivos eram diversos. Alguns estavam fazendo o curso por estarem completando 60 anos, outros por terem as CNHs apreendidas, outros por ser a emissão da primeira CNH e uns poucos, dois ou três, por gosto mesmo.

Janete era a pentelha da sala. Imatura, infantil, faladeira, e por nunca ter sofrido ou causado um acidente com seu modo imprudente de dirigir, não via a mínima razão para estar ali. Manifestava sua revolta, tentando bagunçar a classe e a aula. Era irritante.

Evandro, um técnico de logística de energia e combustível, profissão mais conhecida popularmente como frentista de posto, era alto, bem apessoado e falante.

Maria estava fazendo o curso por gosto e por ter tempo disponível.

Edson, com sua imensa cicatriz de ponta a ponta, diagonal, seu olho cego semi-fechado num rosto que poderia ter sido agradável, era uma pessoa complexada, simples e tímida.

Iara era o estereótipo da mãezona responsável, representante comercial de figurinhas, que viajava muito a trabalho.

Emília era quieta e anódina. Sentava atrás de Maria, que estava na primeira carteira encostada na parede e ao lado de Edson.

Iara sentava do lado oposto, na segunda fila. Evandro no meio da penúltima carteira e Janete, claro...no fundão.

Todos ali eram nivelados como alunos. Ninguém maior ou menor que o outro.

No segundo dia de aula, Maria perdeu a paciência com Janete fazendo com que a segunda maneirasse um pouco na zoeira. Logo no intervalo se entenderam sendo ambas de índole não rancorosa e até ficou acertado que Maria gravaria os filmes “O segredo 1 e 2” para Janete e os traria no dia seguinte, último dia de aula.

Esse foi o dia da troca de informações pessoais. As pessoas falaram de si.

Emília, sentindo-se mais enturmada se abriu. Ela era a esposa ou melhor, a viúva de um homem que há dez meses atrás, no dia dezessete de dezembro, pilotando uma BMW nova que tinha acabado de comprar e após ir comemorar com os amigos num bar, entrou na contra-mão, ironicamente, na rua em que moravam e se chocou de frente com um Monza, matando o casal, o bebê e se matando na colisão. O instrutor Joel, contou então como esse acidente havia sido comentado nas aulas do primeiro semestre e de quão revoltadas as pessoas haviam ficado com o marido da Emília. Ela, por seu lado, passava um certo ar de alívio, embora sutil, de ter se livrado de um marido tranqueira e estava bem serena.

Joel perguntou ao Edson se sua cicatriz era consequência de algum acidente e ele um tanto constrangido narrou sua história para a classe. Aos dezoito anos morava no sítio e trabalhava na roça com o pai. Um dia, este se meteu numa briga e Edson correu para ajudá-lo. No calor da luta, o pai, pensando que estava sendo atacado investiu com uma foice contra ele. Foi triste. A classe ficou compadecida. Ele concluiu que após ficar internado durante três meses, ao sair do hospital ficou muitos anos sem conseguir se olhar num espelho.

No terceiro e último dia, Janete trouxe uma caixa de Bis para distribuir na classe já que, no primeiro dia do curso havia contado que tinha o costume de apanhar Bis de caixas abertas, no supermercado. Foi ferrenhamente criticada pelos pseudo-moralistas da turma e pelo instrutor.

Fizeram varias simulações de testes, como nos dias anteriores e, pela primeira vez, Maria acertou todas as questões e ficou muito feliz.

No final da aula foram agendadas as provas de quatro em quatro, número respectivo de computadores por alunos. Todos se despediram e seguiram seus rumos.


*******


Maria se encontrava na sexta-feira seguinte, à noite, com amigos, na praia do Sabugo, quando eis que entra Edson vendendo botões de rosas. Ao se verem, houve um certo constrangimento, já que Edson insistira com o instrutor que precisava fazer urgente a prova devido a viagem de trabalho que iria fazer para Blumenau. Abraçaram-se e Maria perguntou se ele havia ido bem na prova. Ele disse que sim. Tímido, ofertou-lhe um botão de rosa vermelha, envolto em celofane. Despediram-se desejando sorte um ao outro e ele se foi.

No dia seguinte o botão tinha aberto e se transformado numa das rosas mais lindas que já se viu e durou por muitos e muitos dias, alegrando os olhos e o coração com sua beleza.

 



Escrito por Maria Cunha às 11h11
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