Raimundo Sodré - A massa
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10 de janeiro
Vai começar mais um Bosta Brother Brasil!
Três meses inteirinhos de alienação, burrice, futilidade.
Andei vendo alguns comentários de participantes e tem, como sempre, de tudo. Quem faz gênero “bom(boa) moço(a)”, “pegador(a)”, “inescrupuloso(a)”, “capazes de QUALQUER COISA afim de “ganhar(?!)” (é a merda de lei do Gerson que fez regredir qualquer senso ético do país).
Assisti os dois primeiros BBBs e achei algumas coisas engraçadas e divertidas, até cair minha ficha da “coisificação” do ser humano.
Silvio Santos já faz isso há anos: ver a que nível baixo as pessoas são capazes de descer por dinheiro e 5 minutos de fama. A Globo viu nisso um filão de ouro e se aprimorou em transformar essa prática em algo corriqueiro.
Reality Shows – sinônimo de decadência humana, falta de ética e escrúpulos aplaudida pela mídia, exposição constrangedora do ser humano com a qual o “povão medíocre (de todas as classes sociais)” se diverte como em Roma faziam no Coliseu. Só que os gladiadores e cristãos daquele tempo eram obrigados a se sacrificar e hoje, são voluntários capazes das maiores baixarias, totalmente inescrupulosos, sem valores éticos, movidos à ganância desmesurada. E é isso que a sociedade, não só brasileira, mas humana, anda aplaudindo.
Em Roma a política dos líderes era: Panis et circenses, o famoso pão e circo. Hoje o Coliseu está dentro de casa pelas telas (cada vez maiores) dos computadores e Tvs e esses Realities só fazem alienar as pessoas idiotas, que não percebem o que tá acontecendo no Mundo Real como: aumentos, impostos, estagnação de salários, drogas, falta de escolas e hospitais decentes e tantas outras coisas que precisam melhorar.
Esses realities são o cala-boca aplicado pela mídia para anestesiar o povão enquanto ele vai sendo ferrado e...nem percebe.
Sou uma “televisólatra” assumida, desde a mais tenra idade. Minha televisão fica ligada o dia todo. Adoro filmes, séries, documentários, etc.
O que me deprime é o nível cada vez mais baixo do auto-respeito e o aumento do mau-gosto das pessoas do dito “senso comum” vulgo “povão”.
Acontece que o Império Romano acabou entrando em decadência. O último imperador dessa decadência foi Heliogábalo, um jovem de comportamento chocante (e olha que ele vivia lá no meio das orgias e tudo o mais) que acabou assassinado aos 19 anos.
Quem sabe esses tais realities não sejam uma das manifestações dos estertores finais de uma sociedade decadente e um sistema falido que está por se auto-devorar e acabar logo para dar lugar a um mundo melhor.
São meus sinceros votos.
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Tô numa briga de foice com o cigarro e ...ele tá vencendo. Lula tá com cancer de laringe, eu tenho edema nas cordas vocais e não me importo. Sou auto-destrutiva de natureza. Meu monólogo aborto fala de mim. Li no blog de um cara que conheci na mostra de dramaturgia do ano passado, Paulo de Tharso, e achei um baita ator e que nem sabe que eu existo, coisas que falam de mim.
“Não faço parte de nenhuma confraria. De nenhuma kaza de cultura. Nenhum zoológico urbano me tem em sua jaula. Não faço parte de nenhuma kasta, de nenhum partido. Não faço parte de nenhum círculo de leitura. De nenhuma organização não governamental. Não faço parte de nenhuma turma. Não tenho laços, não tenho pretensões literárias ou musikais. Não amo ninguém e naturalmente não tenho quem me ame. Não tenho posses nem patrimônios... tenho demônios. Não tenho ninguém para quem voltar e ninguém que volte para mim. Eu tenho muitos conhecidos, mas nenhum amigo. Digo bom dia, boa tarde e boa noite e me respondem no mesmo tom. Tenho a lua como parceira e não é toda noite que ela comparece. Tenho o sol como inimigo mortal e o mar como uma ameaça constante. O céu é meu telhado e convivo com um gato em minha kaza. Tenho algumas canções e nenhuma partitura. Não tenho nada! Não deixo filhos nem saudades. Não deixo herança nem maldades. Não tenho esperanças, só doenças. Minha matéria é a ontologia. Tem uns kanalhas que me enchem o saco, mas por serem uns kanalhas, saber isto me basta! Duda Leon; isto lhe kabe como máskara, velho covarde, cujo nome verdadeiro esconde sob esse pseudônimo ridículo! Fui expulso de todos os lugares porque sou inadaptável. Tive muitos amores e tantos desenganos, que perdi a conta. Envelhecer foi meu kastigo. Tornei-me triste, amargo e ressentido. Não ando com ninguém e ninguém anda comigo. Escrevi alguns romances que roubei por aí. Tenho arriskado um novo que provavelmente ninguém irá ler. Tenho vontade de não mais ser, porém, a covardia me obriga a permanecer. Tenho um irmão que não encontro jamais. Um velho pai que se preocupa demais, quando deveria descansar. Uma velha mãe que me lembra sempre da morte. Não tenho sorte. Kaminho sem vontade e sem vontade eu vou aos lugares que me restam. São poucos. Sou desastrado et mal à droit! Sou obrigado a trabalhar para sobreviver. Sou obrigado a viver. Rasguei a maioria de meus escritos e queimei muitas letras de canções. Um tributo a Saturno que devora seus próprios filhos.”
http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/
A diferença é que tenho filhos que afastei e não mais pais, além de uma gata tenho dois cães, não sei quem é esse tal de Duda, mas tem um monte gente assim que conheço, não tive amores, e sim paixões, tive uma baita sorte a vida inteira que não soube como usar e nunca fui obrigada a trabalhar pra sobreviver e quero mais é que Saturno se exploda. De resto é tudo a mesma bosta. Tô tomando um porre, mas segunda-feira pretendo parar de fumar. Abandonar meu ÚNICO amigo que está comigo há 40 anos. Tá duro da pôrra!!!! Nem sei se quero! Sou uma suicida covarde. Agora vou abrir outra cerveja e picar batatas para maionese que nem sei se quero comer.

A obra De uma loba sobrevivente de Maria Cunha foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada
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Monólogo
Abortius
criação e roteiro: Maria Cunha
direção: Julio Carrara
2º Lugar no Festival Paulo de Andrade de Monólogos de Piedade - dez 2010
Rap: Compulsão
Eu como demais
bebo muito, demais
falo tanto demais
danço louca demais.
Também penso demais
durmo demais
trabalho demais
e compro demais.
Eu fofoco demais
e aí fumo demais
e brigo demais
transo demais.
Paquero demais
também cheiro demais
me pico demais
quero vida demais.
Vertiginoso, destrutivo
perigoso, obsessivo
meu pique é extremo
nada tem de sereno.
o fundo do copo
o fundo do poço
até o pescoço
num jogo aturdido.
Sempre, o mais é pouco
nada nunca é bastante
só paro quando acaba
e o povo segue adiante.
Acordo arrasada
me sentindo vazia
vazia e culpada
desajeitada,
envergonhada.
Fruto de uma família
dizem que disfuncional
e de uma sociedade
tão paradoxal.
Em que consumo é legal.
Consumo de gente
de roupa, de sapato
de sexo, de mente.
E assim vou consumindo
o que aparece pela frente
não me importo com nada
nem matar minha gente.
Sou rolo compressor
que passa por cima
triturando pirado
e nessa eu me acabo.
Até quando? eu pergunto
ansiosa e frustrada
nem eu aguento o tranco
e fujo assustada.
Sou um jovem tão velho
e um velho assustado
me perdendo eu penso
que me acho de algum lado.
Tô fora, tô dentro
do orbe, do planeta
me penso enturmado
mas sou só tão desgastado.
Homem ou mulher
não faz diferença
o que importa é por dentro
o voraz que não se aguenta.
A tal paz eu não acho
procuro me perdendo
de mim mesmo até onde
só sei que me arrebento.
Frustrada, cansada
esmulambada
arrebentada
eu vou me perguntando:
até quando? até quanto?
Me mostre o caminho
pra eu parar esse monstro
que me devora e acaba
com tudo e não tem rosto.
Quem sabe algum dia
o equilíbrio distante
eu atinja com alegria
devagar e num instante.
Daí serei só paz,
paz e serenidade
andarei pelo mundo
com passos de bondade.
E essa dor louca, insana
de viver acuada
sumirá de verdade
ficarei mais centrada.
Maria Cunha/setembro 2010
Eram vinte a iniciarem o curso de reciclagem no Centro de Condutores. Seus motivos eram diversos. Alguns estavam fazendo o curso por estarem completando 60 anos, outros por terem as CNHs apreendidas, outros por ser a emissão da primeira CNH e uns poucos, dois ou três, por gosto mesmo.
Janete era a pentelha da sala. Imatura, infantil, faladeira, e por nunca ter sofrido ou causado um acidente com seu modo imprudente de dirigir, não via a mínima razão para estar ali. Manifestava sua revolta, tentando bagunçar a classe e a aula. Era irritante.
Evandro, um técnico de logística de energia e combustível, profissão mais conhecida popularmente como frentista de posto, era alto, bem apessoado e falante.
Maria estava fazendo o curso por gosto e por ter tempo disponível.
Edson, com sua imensa cicatriz de ponta a ponta, diagonal, seu olho cego semi-fechado num rosto que poderia ter sido agradável, era uma pessoa complexada, simples e tímida.
Iara era o estereótipo da mãezona responsável, representante comercial de figurinhas, que viajava muito a trabalho.
Emília era quieta e anódina. Sentava atrás de Maria, que estava na primeira carteira encostada na parede e ao lado de Edson.
Iara sentava do lado oposto, na segunda fila. Evandro no meio da penúltima carteira e Janete, claro...no fundão.
Todos ali eram nivelados como alunos. Ninguém maior ou menor que o outro.
No segundo dia de aula, Maria perdeu a paciência com Janete fazendo com que a segunda maneirasse um pouco na zoeira. Logo no intervalo se entenderam sendo ambas de índole não rancorosa e até ficou acertado que Maria gravaria os filmes “O segredo 1 e 2” para Janete e os traria no dia seguinte, último dia de aula.
Esse foi o dia da troca de informações pessoais. As pessoas falaram de si.
Emília, sentindo-se mais enturmada se abriu. Ela era a esposa ou melhor, a viúva de um homem que há dez meses atrás, no dia dezessete de dezembro, pilotando uma BMW nova que tinha acabado de comprar e após ir comemorar com os amigos num bar, entrou na contra-mão, ironicamente, na rua em que moravam e se chocou de frente com um Monza, matando o casal, o bebê e se matando na colisão. O instrutor Joel, contou então como esse acidente havia sido comentado nas aulas do primeiro semestre e de quão revoltadas as pessoas haviam ficado com o marido da Emília. Ela, por seu lado, passava um certo ar de alívio, embora sutil, de ter se livrado de um marido tranqueira e estava bem serena.
Joel perguntou ao Edson se sua cicatriz era consequência de algum acidente e ele um tanto constrangido narrou sua história para a classe. Aos dezoito anos morava no sítio e trabalhava na roça com o pai. Um dia, este se meteu numa briga e Edson correu para ajudá-lo. No calor da luta, o pai, pensando que estava sendo atacado investiu com uma foice contra ele. Foi triste. A classe ficou compadecida. Ele concluiu que após ficar internado durante três meses, ao sair do hospital ficou muitos anos sem conseguir se olhar num espelho.
No terceiro e último dia, Janete trouxe uma caixa de Bis para distribuir na classe já que, no primeiro dia do curso havia contado que tinha o costume de apanhar Bis de caixas abertas, no supermercado. Foi ferrenhamente criticada pelos pseudo-moralistas da turma e pelo instrutor.
Fizeram varias simulações de testes, como nos dias anteriores e, pela primeira vez, Maria acertou todas as questões e ficou muito feliz.
No final da aula foram agendadas as provas de quatro em quatro, número respectivo de computadores por alunos. Todos se despediram e seguiram seus rumos.
*******
Maria se encontrava na sexta-feira seguinte, à noite, com amigos, na praia do Sabugo, quando eis que entra Edson vendendo botões de rosas. Ao se verem, houve um certo constrangimento, já que Edson insistira com o instrutor que precisava fazer urgente a prova devido a viagem de trabalho que iria fazer para Blumenau. Abraçaram-se e Maria perguntou se ele havia ido bem na prova. Ele disse que sim. Tímido, ofertou-lhe um botão de rosa vermelha, envolto em celofane. Despediram-se desejando sorte um ao outro e ele se foi.
No dia seguinte o botão tinha aberto e se transformado numa das rosas mais lindas que já se viu e durou por muitos e muitos dias, alegrando os olhos e o coração com sua beleza.
O amor perfeito é sempre
aquele que está por ser vivido.
O frisson da espera,
a expectativa dos sonhos.
Um não sei quê de angústia
mesclado de perspectivas.
É o devaneio com um porvir de ilusão.
Sonhos de entrega e de ternura.
É o querer não querer
e a tocatta em fuga ao fundo.
É o prenúncio do adeus.
29/02/2008
A outra
A outra me desnuda, dilacera e rasga.
A outra me deprime, suprime e exime.
a outra me fraciona, me questiona, me abandona
a outra me escancara a contra-gosto
mostrando dores, cicatrizes.
A outra me incomoda, me acossa, me aguilhoa
me cansa, me exaure, me anula e me cumula
de dores e prazeres.
A outra me envergonha, me constrange e me restringe
a outra me cura, onde supura a dor ela lanceta
a outra me comove quando me envolve e me nutre o ventre
selvagem bela,
magoada fera,
rústico engano
e cai o pano.
A outra é a outra
está em mim,
existe em mim
mas não sou eu.
ou sou? Fui? Serei?
01/09/2007
Absolutos
Fujo dos absolutos.
Pessoas com:
certezas ilimitadas,
Convicções irrestritas,
Verdades integrais,
Posturas soberanas.
A única certeza que tenho
É que tudo está
Em constante mutação.
Minha única
Convicção incontestável
É que no Universo...
Nada é absoluto.
13/09/2008
A borda
Permito-me chegar à borda.
Precipício.
Precipito precipite,
no escuro profundo, indevassável?
Inda não.
Temor e fascínio.
Não caio, nem me arrojo.
Volteio pela beira.
Flerto com a profundeza.
Sedução. Resisto.
Danço num ir e vir.
Duvido de mim mesma.
Tenho medo.
Terror visceral.
Pavor atávico.
Atração suprema.
Preciso ir.
Devo lançar-me e não me atrevo.
Freio frenético me barra o salto.
Grilhões ferrenhos.
Máscara fétida e linda.
Indevassável, cruel, opressora.
O jorro d’alma estancado em estupro, cala.
O salto...liberdade.
Descer ao Hades e retornar ilesa,
Ou quase.
Devassar o indevassável e ganhar a força.
Ir onde todos temem e tornar com o segredo.
Desafio único de uma vida.
17/04/2008
...elogio em boca própria é vitupério" mas, ...
Depois de um Natal delicioso com minha filhota no. 1, passar 6 dias na terra que mais amo e reencontrar entre o último dia do ano antigo e a primeira quinzena do ano novo, gente querida que havia se perdido no tempo, cá estou de volta com gás e tempo.
Refleti muito sobre esses reencontros. Pessoas que estavam tão próximas em eras idas, distantes do meu presente e de quem sou hoje me levaram a fazer um balanço sobre minha trajetória.
Ao falar com uma dessas pessoas e contar-lhe que perdi quase tudo de material que possuía ela me respondeu: É mesmo?! Sério? (com voz compungida). Interiormente eu ri. Ri porque a vida é a arte das trocas e, nessa troca, com certeza, eu ganhei.
Antes era uma vida materialmente rica, fútil, carente, triste, insana, sem serenidade nem responsabilidade, cheia de gente, e falsa. Antes eu não sabia o valor que meu trabalho tem e nem que eu era uma pessoa tão querida.
Tudo que deixei para trás foram pesos mortos e opressivos.
Hoje tenho a maior riqueza que um ser humano pode ter que é: a SI PRÓPRIO.
Se “Solidão é a distância que estamos de nós mesmos” estou em ótima companhia.
Aprendi com uma árdua trajetória a ter auto-respeito, auto-estima embasada em valeres reais, desenvolvi o instinto da auto-preservação, aprendi em que tenho muito valor e onde nem tanto.
Descobri com grandes mestres a me aceitar como sou e ir lapidando essa alma milenar aos poucos, ora aqui, ora ali, sem pressa e sem preguiça. No ritmo do Tao: o caminho do meio.
Me amo e isso independe do que tenho e tem tudo a ver com quem sou.
O ser humano acre-doce, a amiga leal, a mãe, a atriz, a filósofa, escritora e artista plástica, a terapeuta, a voluntaria, a empregada, a namorada, a parceira, a líder, a seguidora.
Mulher forte que não perdeu a sensibilidade mas ganhou em compreensão do mundo.
Sei que “Elogio em boca própria é vitupério” mas, é importante comunicar com alegria que aprendi a lição. Tomara mais e mais pessoas fizessem isso.
Heroína de si mesma. Selvagem. A que corre com lobos....rs. A Fênix que teve que morrer para o velho e nascer de novo.
Isso é quem sou.
Nesse processo houve uma peneira. O que valia a pena ficou.
Hoje estou atravessando, só, o Inferno de Dante
Dantescamente surreal e orbital, na esfera do meu umbigo egóico e putrefato, percorro o corrupto lado negro da Força. Em círculos plenamente concêntricos. Os abutres da alma laceram as carnes podres. E tudo tão indecentemente acridoce.
Ontem, sábado de carnaval, chego para assumir meu posto na balança do Restaurante Vegetariano e...
- Mataram alguém na sua rua, hoje, Maria?
- Como assim?
- Vixe! Tu num viu a poça de sangue que ta lá, do lado do poste, do ladinho do cartório Rolim?
- Vi nada, não. Sai ontem no bloco do Depois. Saí de casa às nove e meia da noite, voltei as três da manhã, de carona e não tô sabendo de nada, não.
- Então vai lá ver.
Fui. Já atravessei a rua com aquela sensação esquisita na boca do estômago e rezando pro agressor e pro agredido, porque acredito que uma energia ruim fica rodeando o lugar em que acontece esse tipo de coisa.
O sangue estava mesmo lá. Mesmo que eu não quisesse acreditar antes e até achasse que era qualquer outra coisa, sei lá...tinta, por exemplo. Não era. Era sangue. Ainda sem estar preto, o que significava que não estava tão velho. Algumas horas. O poste com as marcas de mãos ensangüentadas que tentaram se agarrar e nada mais. Meu patrão não sabia de nada. Ninguém sabia de nada. Almocei com uma coisa ruim me rodeando e focando em Deus pra espantar aquela coisa. O que sentia era tristeza misturada com espanto. Impotência com abandono. Compaixão com medo. Medo por todas as pessoas que amo (e são tantas) soltas por aí, correndo risco e eu impotente. Inconformada. Como é que podia? Na minha rua. Bem na horinha que eu estava brincando carnaval, entre o tema do bloco, cantado de cima do carro de som do trio elétrico e a bateria do Clube 28, que vinha na frente, em outro ritmo mais acelerado. Com minha cara pintada de azul turquesa, uma linda borboleta, símbolo de leveza, transmutação e liberdade. As franjas da camiseta, cortada em tiras, desde três anos atrás, quando descobri que o bloco existia, e comecei acompanha-lo, agora bordada de lantejoulas que coloquei de tarde. Eu estava alegre e um cara, provavelmente um dos michês com quem eu encontro eventualmente, nas noites, ao voltar para casa, era sangrado, na minha rua.
- Isso acontece em qualquer lugar. – dizem uns a guisa de consolo.
- Não. – respondo eu. – Na minha rua, não. Não quero. Não aceito.
Não aceito a banalização da violência.
Voltei para casa e parei no hotel em frente para perguntar se sabiam de alguma coisa.
- Bem que ouvi tiros lá pras duas da manhã. – disse o porteiro que havia passado a noite. – mas botei a cabeça para fora, olhei para cima, para baixo e não vi nada.
Hoje, domingo, descubro mais um fiapo de informação. Era mesmo o michê que fazia ponto na esquina do largo São Bento e, de quebra, dizem, vendia drogas.
Morreu.
Alguns moradores vão ficar contentes por ser menos um, sem atinar que logo será substituído por outro igual a ele. Outros talvez pensem remotamente, que era um ser humano parido como todo mundo, que chegou até onde estava por que talvez nunca tenham se importado em lhe mostrar outro caminho.
Morreu. E ninguém está nem aí. É só mais um número nas estatísticas.
E ninguém vai fazer nada para modificar a situação.
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